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Horror em Cinco Pulsos

Adriano Fernandes da Silva

Copyright

Todo o direito autoral dos textos a seguir pertencem ao autor, Adriano Fernandes da Silva.

Prefácio

Esse livro não possui uma página de agradecimentos, isso por eu ter decidido agradecer todo e qualquer um que adquirisse meus escritos.

Não fiz desse fato uma propaganda, mas todo o conteúdo aqui foi escrito com o esforço máximo de momentos de depressão, e como uma fagulha de esperança para sair dos momentos mais difíceis da minha vida. Então eu lhe agradeço pelo voto de confiança ao adquirir meu trabalho.

Adoro o horror, a ficção e a fantasia, mas me traz um sorriso ao rosto saber que alguém leu e se satisfez com meu texto.

Prólogo

Os contos a seguir são frutos da minha imaginação e experimentação com o horror, conhecendo suas misturas com a ficção, o drama, fantasia, tragédia, ação, aventura... E espero agradar os mais variados gostos, de modo que cada conto tem seu traço marcante.

Contos

O coração e a Esfera

Vermelho é o Terror

Terra, Sombra e Sangue

Relâmpago

Aquilo que veio do céu

O Coração e a Esfera


Meu nome é Alex, e esse é o relato do coração dos meus horrores.

Da vida incomum que eu levei e levo, o ponto alto e brilho maior, foi a existência de Jessica, uma moça como qualquer outra, mas que me iluminava as veredas no aperto de uma criação rígida.

Eu sou filho único de uma família mais que religiosa, de uma rigidez, nessa área apenas, que beirava a insanidade, e fazia com que eles evitassem ao máximo, qualquer contato meu com Jessica.

Ela era de igual crença, porém, de uma família saudável, e demos um jeito de nos encontrar e entrelaçar nossas rotinas de modo a seguir juntos e jamais ir além dos limites impostos pelo que acreditamos.

Nós éramos um fenômeno que seguia contra a corrente violenta dos tempos modernos. Um casal de jovens que prometeu só entrosar os corpos em longos abraços, esperando as etapas sociais e religiosas para qualquer aproximação física em um plano mais profundo.

No campo mental, havia uma magia entre nós, daquele jeito que um prevê o que o outro vai dizer, ao ponto de ter vontades parecidas e até sonhos semelhantes. E, de todas as coisas que eu mais senti falta, o abraço foi uma das principais, pois eu me lembro de momentos em que ultrapassamos o limite de horas, apenas abraçados e conversando, como vozes dentro do ouvido um do outro.

Ela me inspirava a seguir adiante, estudar, sorrir num trabalho rotineiro e estressante, e eu tinha a mesma resposta por parte dela.

Com muita luta eu conseguia barganhar em casa e passar um feriado com a família de Jessica, onde eu me relacionava bem com seus pais, irmãos, e até com o imenso golden retriever que preenchia o sofá e subia nas pessoas como um lençol dourado.

Eles tinham orgulho de mim, e era uma sensação única, o orgulho da maneira que eu e a filha mais jovem da família estávamos a proceder numa geração em que o vício é estimulado nas músicas que tocam em comemorações de aniversário infantil.

Nós tínhamos tantos planos, tanta vida pela frente, e a parte do caráter, do entrosar das ideias, da compreensão, nós conseguimos levar por anos sem sequer um toque além do que era permitido pela fé...

Certo dia, Jessica foi até o centro da cidade para uma entrevista de emprego, e eu me encontrava trabalhando, tendo me despedido dela somente por uma mensagem de voz no telefone.

Ela foi ao meio dia, sob a falsa segurança da luz forte do meio do céu e da civilidade do coração da cidade. Jessica desapareceu por três dias, sem deixar nenhuma pista, apenas as ultimas mensagens para mim e família, dizendo que voltava naquela tarde, depois da entrevista.

No fim do terceiro dia de desaparecimento, um morador de rua estava tomado por fome, caçando algo que fizesse a barriga parar de rugir como um leão. Naquela busca, num beco, ele abriu uma caçamba de metal e encontrou um corpo feminino, notificando as autoridades imediatamente.

Pelo menos alimentaram o pobre homem, mas o meu apetite e o de uma família inteira não voltaria por dias a seguir.

Era Jessica na lixeira de metal, e quando eu cheguei na cena, ninguém tinha me informado direito o que estava acontecendo. Eles não tinham coragem de me dizer por telefone, somente falavam para eu ir até determinado endereço, onde havia acontecido algo sério.

Eu vi uma roda de policiais, a família que sempre sorria estava despedaçada, com a mãe desmaiando nos braços dos filhos e alguns policiais, e o pai de joelhos no recanto da rua, lançando fora do intestino tudo que tinha ingerido, tomado por angústia.

Lá, no meio da roda estava Jessica, coberta por um lençol branco, ainda não removida da caçamba, para que a cena não fosse alterada. Eu não sei o que aconteceu comigo no momento, eu só vi meu corpo se mexendo enquanto minha cabeça mergulhava num desespero que eu desconhecia.

Eu consegui passar por alguns policiais e puxei a ponta do pano branco que me escondia a visão completa, e lá estava o que restou de Jessica, completamente desnuda, com marcas das mais profundas manifestações de violência.

Nesse momento o cérebro é uma coisa misteriosa, pois eu senti o momento em que a imagem dela foi revelada e o tempo em que levou até o impacto me acertar como uma pancada de tijolo na testa, me fazendo cair, imediatamente, num desmaio profundo, coisa que eu jamais havia sentido em toda a vida.

Ali estava o corpo que eu abraçava, e apenas abraçava, e me felicitava pela oportunidade de abraçar alguém que eu considerava mais que importante. Uma parte de mim.

Alguém a tinha tomado, levado toda a roupa, e forçado horrores com marcas nítidas de lâmina, mordidas e até queimaduras.

Eu me afundei, mergulhei no horror, e algo no interior da minha mente, de uma forma tão sensível quanto o sentir físico, se quebrou no silêncio absoluto do desmaiar.

Despertei no atendimento hospitalar, com meus pais me rodeando, tristes, mas com a típica frieza que achava espaço para críticas, julgando errado o meu desespero:

"Se ela foi gente boa, então não precisa se desesperar tanto... Ela dorme em paz... Isso se foi conforme a fé até o fim...".

Eu não retruquei a sugestão deles acerca da índole de Jessica, apenas tentei não me afogar em desespero, já que me afogava no sabor salgado das lágrimas e dos soluços involuntários que dificultam qualquer meio de comunicação.

Eu me isolei em mim mesmo, sendo até medicado para poder me acalmar e comparecer ao funeral, segurado pelos braços diante da última imagem de Jessica. Os funcionários foram bem atenciosos e a vestiram muito bem para aquele último evento, deitada e num vestido que a fazia parecer um pouco com uma noiva.

Eu acompanhei de perto até o fim, com as pessoas sendo minhas pernas, me carregando por falta de força nos músculos.

Assim que tudo terminou, voltei para casa, da forma que foi possível, para cair num sono influenciado por remédios, com a sincera vontade de não acordar para uma realidade horrenda. E dali eu não consegui mais seguir adiante como antes, o mundo inteiro adentrou num inverno permanente, e eu perdia peso a cada semana.

Depois de trinta dias, começaram os escurecimentos na visão e sensações como alucinações fracas, distorções na vista, mas nunca comentei com meus familiares, pois eu conhecia o remédio deles para todos os problemas: deixar os pecados e ter fé.

Eu estava na margem de adentrar minhas férias, que seriam mais um pedaço de luto do que férias, mas quis o destino que eu testemunhasse algo além da minha compreensão. Solitário, numa noite como todas as outras, eu atentei para a televisão, onde uma jornalista cobrava reformas na vila portuária Caes Marfim, que foi assolada por uma tempestade há um ano e ainda tinha menos da metade reformada, com as pessoas obrigadas a viver em meio povoado, onde era possível.

Entre escombros e alguém que testemunhava relatando a destruição, eu vi uma silhueta feminina surgindo entre os restos de uma casa desabada.

A moça veio para perto da cena e fixou os olhos na câmera, não muito longe de onde a jornalista entrevistava o povo.

O corpo esguio e alto, a cor da pele, o jeans típico, a blusa, os cabelos com poucos fios claros e os dois grandes olhos negros me fizeram sentir o mundo parar.

Era Jessica, ali, olhando para a câmera como um fantasma, separada dos moradores e da equipe de jornalistas, com os olhos focados, penetrantes, sabendo que seria vista e reconhecida. E ficou até que a reportagem acabasse, me levando a pesquisar pelo vídeo na Internet, usando meu celular, já que computador não era bem vindo em casa, por considerarem "uma distração do demônio".

Vi o vídeo, e vi novamente, mais e mais, incontáveis vezes, até salvando as imagens mais nítidas daquela moça.

Não era um caso de alguém parecer muito, era Jessica, em carne e osso, viva, se fazendo aparecer na câmera para ser vista por quem a reconhecesse, e essa pseudo certeza se cravou em mim de modo que determinei que viajaria até aquele lugar.

E meu tempo de repouso seria iniciado na semana seguinte, me permitindo convencer minha família que minha saída tinha cunho religioso, para ir até a cidade que lutava por reformas e rezar por todos eles, me livrando dos pensamentos de perda.

Eu insisti muito, mas foi possível sair na segunda feira, tomando dinheiro e poucos mantimentos comigo, para o primeiro ônibus do dia, debaixo do resto da sombra da noite.

No caminho não me importei com a imensidão do verde que antecede a vila, nem tinha qualquer atração pelos montes e subidas que nos faziam ver a neblina tão de perto, em flocos de nuvens, mas fiquei lendo informações sobre Caes Marfim, que nunca sofrera algo da dimensão do que aconteceu no ano passado.

Não havia previsão de chuva no dia do desastre, só garoa constante e a típica neblina que subia do mar quando o clima resfriava.

A chuva veio por volta da uma da manhã, acompanhada de um vento digno de tornado, que levantou os telhados e derrubou as casas mais humildes, levando metade de todas as moradias, dividindo a vila entre parte habitável e escombros.

Eu encontrei, na Internet, noticias sobre o que houve nos meses seguintes. E por seguidas vezes tentaram retomar as construções naquele pedaço mais próximo do mar, mas a primeira equipe, segundo escritos, foi acometida por uma intoxicação alimentar aguda, causada por contaminação da toxina de algas que foram transportadas à superfície pela severa tempestade.

Um mês depois, um grupo de trabalhadores retomou as reformas, que duraram por mais de trinta dias, até que cedessem a uma fadiga patológica não identificada, que demandou uma análise do terreno com eliminação de toxinas e fatores que poderiam estar causando o mal estar nos funcionários.

Quando um novo grupo retomou, esse também foi acometido por males de ordem física e mental, de modo que consideraram o trabalho demasiado pesado para as equipes.

Uma medida nova ficou pendente e todo o lugar estava abandonado, com o povo improvisando a vida no espaço que era possível, contando com a solidariedade, reconstruindo seus barcos e voltando às pescas que movimentavam a economia.

Eram informações misteriosas, mas não me importei, já que os meses passaram e os escombros molhados secaram debaixo do sol forte da praia, eliminando alguma bactéria que pudesse me oferecer perigo na visita. E considerei importante a notificação de que nada anormal foi diagnosticado entre a população, podendo ser uma sequência de episódios muito semelhantes, nada mais.

Fizemos três paradas com o ônibus, aproveitando para comer e caminhar pelos arredores dos postos de gasolina, promovendo a circulação no sangue. Ficar sentado por horas é cansativo.

Nas primeiras horas da noite chegamos à vila, e fui recomendado a uma pensão que ficava próxima dali e recebia turistas com frequência, dada a proximidade da chegada.

Caminhei dez minutos e cheguei onde repousaria, me surpreendendo em parecer o único visitante da vila, no momento.

Os poucos que vieram comigo no ônibus eram parentes de pessoas locais ou moradores que viajaram para a cidade e já estavam de volta. E logo eu aproveitei a pensão para sacar meu telefone, a mostrar a todos uma foto de Jessica, sentindo que minha crença tomou minha cabeça no momento em que eu pronunciei, com timidez, aos donos da pensão:

"Vocês viram essa moça por aqui?".

Eles pensaram e repensaram, franzindo a testa e forçando a memória até encontrar o que pareceu ser uma recordação dela.

"Acho que sim... Não parece desconhecida, mas acho que ela tem passado uns dias lá pra perto das casas desabitadas... Talvez tenha algum parente aqui... Perdão por não saber informar melhor...".

Eu agradeci muito, pois já era uma pista que eu não tinha perdido tempo em programar essa aventura movida a loucura.

O vilarejo dormia cedo e eu devia seguir os costumes, de modo que me acomodei num quarto humilde e programei meu telefone para tocar o alarme assim que o sol nascesse, para que eu seguisse minha busca.

Meu sono pareceu durar um minuto, e a brecha da janela já mostrava o nascer do sol distante, com a vila respirando o ar nebuloso do inicio de um dia frio.

Comi daquilo que trouxe comigo, saindo da pensão com mochila nas costas e celular em mãos, mostrando fotos a todos que cruzavam meu caminho na manhã pouco movimentada.

Haviam os que não sabiam me informar, mas uma relevante percentagem parecia já ter visto Jessica por ali, mesmo sem saber dizer com precisão o lugar e nem se era a mesma moça ou alguém semelhante.

O apontar de poucos me levava cada vez mais para dentro do vilarejo, seguindo um tipo de avenida, de onde as ruas menores ramificavam, como uma árvore.

Dessa espinha dorsal da vila, eu alternei para caminhos mais estreitos até o ponto em que foi possível ver o traço dos escombros, separados das casas habitáveis por um espaço equivalente a um metro, onde removeram os restos manualmente, permitindo até a passagem de alguém.

Antes que eu pisasse na área inabitada, uma voz gritou por mim do lado direito, vinda da janela de uma das humildes casas.

Lá estava uma senhora de idade avançada, cabelos da cor de prata escapando por debaixo do lenço e olhar preocupado.

"Moço, esse lugar não tem ninguém, daí até o mar é só casa destruída e coisa que ninguém quer ver...".

Ela pensou que eu fosse um simples turista, então me aproximei da janela e mostrei a foto de Jessica a ela.

"Obrigado por me avisar. A senhora viu essa moça por aqui?".

Ela pediu um momento, foi até dentro de casa, colocou os óculos potentes e aproximou o rosto da imagem que eu mostrava.

"Eu... Eu vi moço... Mas... Ela não é daqui...".

Eu concordei animado, dizendo que ela era de onde eu vinha, e vim justamente para a encontrar na vila.

A senhora saiu pela porta, preocupada, uniu as mãos em frente ao peito, como quem reza, e me explicou com delicadeza:

"Não é bem assim... É que eu não sei, exatamente, se essa é a moça que você busca... E te digo o motivo, mas você ficaria para ouvir a história de uma velha viúva?".

Me interessei profundamente e fiquei para ouvir a senhora, chamada Branca, me sentando sobre o pequeno muro que cercava sua humilde moradia.

"Foi uma semana antes da tempestade, ainda com nosso povoado bonito e cheio de vida...

Os pescadores da parte de lá saíram para pescar como faziam sempre, levando os filhos, amigos, naqueles muitos barcos bonitos de ver, lado a lado, enfrentando o azul do mar.

Naquele dia a água parecia de lagoa, bem mansinha, sem onda, e eles sumiram logo na nossa vista... E era esperado que a pescaria durasse muito, eles voltassem carregados de peixes, como sempre foi.

Quatro horas depois, uma barca voltou com toda velocidade que a brisa permitiu, e era de familiares trabalhando juntos.

Nós vimos os filhos descendo depressa e correndo na areia da praia, carregando o pai sobre os braços, vítima de um estranho mal súbito.

O senhor Aroldo era muito bom com todos, e famoso pela saúde e força, capaz de puxar as redes de pesca que nem um jovem suportava. Mas nós o vimos sendo carregado até o hospital, onde ficou sob observação sem que ninguém soubesse de que mal padecia.

Na carga que eles conseguiram, haviam os peixes típicos da costa e um objeto como uma escultura em forma de bola. Não era bonita, era como uma bola de pedra rolada, mas com poucos detalhes entalhados, e sem um padrão definido.

Minutos antes de sofrer o mal súbito, Aroldo pediu aos filhos que guardasse a bola, pois acreditava que tinha valor para venda. Então voltou ao trabalho e acabou caindo sem sintoma prévio, com fala desconexa e completamente confuso.

Os filhos estocaram a carga e seguiram o trabalho nos dias seguintes, para se sustentar, mas todos os dias estavam visitando o hospital, assim como o povo, já que num povoado tão pequeno, todo mundo se conhece.

Aroldo não melhorava, e começava a dar sinais de medo, surtos onde gritava e olhava ao redor, vendo coisas que nem o médico podia explicar.

Um homem saudável... Por nada, se afundou numa loucura que precisava de internação, sem ninguém na família com histórico parecido.

Um dia antes da tempestade, ele ficou desesperado o dia inteiro, e queria se esconder como se previsse o pior, mas ninguém sabia o que queria dizer, então acabou demandando uso de muitos calmantes, mas eles não funcionaram, mesmo na dose mais forte que podiam aplicar...

O fim veio na madrugada, quando chegou a chuva, e só sabemos que Aroldo e a família, assim como muitas outras famílias, não conseguiram sobreviver...

Agora olha a destruição, moço, e me diz se você vê uma coisa que te pareça estranha...".

Eu atentei para a história e, depois, voltei minha cabeça para a rua, vendo a destruição, o limite dela e onde começava a parte intacta do vilarejo, mas não compreendi o que a senhora queria me dizer.

Vendo minha dúvida, ela me esclareceu os fatos com afirmações que me gelaram a alma:

"Eu vivi por aqui desde a infância... Desde nascida... E foram oitenta e um anos... E nunca vi uma única chuva forte, além dessa, que marcasse exatamente que parte pretendia causar destruição e que parte ficaria intacta...".

Voltei novamente os olhos para os escombros, agora vendo a medida métrica entre as casas inteiras e caídas, que não foram, em sua maioria, feitas por mãos que removeram escombros, mas pelo limite da chuva que castigou o povo.

E por alguns segundos eu me mantive naquele choque, até o momento em que voltei ao assunto que começara nossa conversa:

"Essa moça da foto tem alguma coisa a ver com essa chuva forte?".

Dona Branca pareceu se aprofundar nas memórias que mais a assustavam, então me respondeu com temor:

"Depois da chuva vieram os trabalhadores do governo, tentando arrumar a casa de quem não tinha falecido, mas começou a dar errado quando eles adoeceram, e voltaram mais pessoas para tentar reconstruir, mas esses também adoeceram... E assim foi, até que desistiram, e não tiveram como admitir isso até hoje.

Na época que tentaram trabalhar, houve mais de um caso estranho, que eles divulgaram como mal estar físico, mas a gente, que mora perto, viu como as pessoas passavam mal...

Houve um rapaz que sumiu por dois dias, depois apareceu, machucado, cansado, abatido, dizendo que tinha visto a avó caminhando pelos escombros e tinha tentado a encontrar.

Algo parecido aconteceu a um senhor que abandonou as obras para tentar resgatar sua filha lá dentro dos pedaços de madeira, que até chamava por ele... Mas, em todos os casos, essas pessoas que eles viram, já eram falecidas...".

Eu devo ter ficado pálido no momento, e senti o corpo pesar, sem a menor ideia de como prosseguir depois dos relatos. E a senhora me garantiu que, se eu caminhasse por todas as casas que ficam próximas de onde houve a tentativa de reconstruir, todos me repetiriam esses relatos e mais detalhes que ela não presenciou.

Nada daquilo fazia sentido, uma escultura estranha, depois tempestade, depois insanidade contagiosa no meio das reformas... Era uma sucessão de acontecimentos negativos e sem explicação racional que fosse satisfatória.

Eu agradeci pelos avisos e voltei na direção oposta, evitando a parte macabra da vila, pensando o que eu faria. E minha vontade mais profunda, talvez escondida até da minha própria vontade consciente, foi de injetar doses de ceticismo a cada passo, desacreditando naquilo que me disseram para criar coragem de seguir em frente.

Em determinada esquina, eu retomei fôlego e saí para minha pesquisa, deixando as demais casas, na margem da destruição, para questionar por último.

As respostas das pessoas eram incertas e tendiam, sempre, para positivo. Eles tinham visto Jessica em algum momento, e eu comecei a depender da estatística positiva para me motivar.

Se fosse ela, realmente tinha chegado na vila e ido direto para a parte próxima da praia, abandonada.

A essa altura, eu estava tão envolvido com minha busca, que a racionalidade foi deixada de lado por completo, e a memória de encontrar Jessica sem vida, há dias, era apenas como um sonho ruim.

Eu presenciei seu enterro e sofri até o presente momento por esse fato, mas isso só me dava mais força para seguir nessa busca que não fazia sentido, no mínimo, mas eu não conseguia desacreditar...

Passei o dia inteiro andando e perguntando, de casa em casa, sem me importar se as pessoas me olhavam com receio, estranhando minha presença. Meu foco foi investigar, e eu nem cheguei a comer nada além do breve café da manhã, pois era mais um sintoma da minha condição recente, completa falta de apetite.

Eu perdi tantos quilos desde o enterro de Jessica, que alguém que me conheceu na juventude já não me reconheceria se me visse caminhar na rua.

O povo estava intoxicado por um ar de assombro daqueles eventos misteriosos acontecendo por ali, de modo que não saíram de suas casas com a frequência que eu esperava. E já nos primeiros minutos do fim da tarde, uma neblina e brisa fria fazia todo o lugar se envolver numa melancolia absurda e um silêncio de incomodar os ouvidos.

Uma ou outra gaivota que cruzava o céu, seguia em direção oposta à vila, fugindo de um mal que ela podia sentir e ver de um ângulo privilegiado.

Antes das seis horas da tarde eu já estava completamente só nas ruas, ouvindo o som dos meus pés contra as ruas de pedra, inalando o ar úmido, carregado o suficiente para se manifestar em gotículas geladas. De dentro das casas, as lâmpadas pareciam velas por detrás da neblina, e todo o cenário me dava a impressão de estar num gigantesco velório sem choro.

Eu decidi voltar para a pensão, era melhor me apartar daquelas sensações, mas foi justamente nesse momento em que ouvi um passo ecoar no silêncio, não tão distante, de modo que retrocedi para ver se via alguém que pudesse ser relevante à minha busca.

Na neblina, eu vi calças jeans azuis e uma blusa branca que caminhavam adiante de mim, nas medidas e altura que eu conheci por tanto tempo.

Gritei em voz alta, estrondando pela rua:

"Jessica!".

A figura desacelerou o passo e ficou quase envolta num manto de neblina. Então acelerei o passo continuando a chamar, com ela indo adiante, sem me esperar.

Pensei que ela não conseguisse me reconhecer por causa da neblina, ocultando nossos rostos, então insisti na corrida, explicando que era eu, que não precisava ter medo.

Eu corri por um bom tempo, me hipnotizando pela sensação de estar me aproximando. Então houve uma curva e ela adentrou um monte de escombros, fazendo barulho no caminhar por entre a destruição.

Eu me vi diante da metade destruída do povoado, com os pés na fronteira que limitava ambos os lados, mas ignorei completamente o que me relataram anteriormente e adentrei os escombros, seguindo pela abertura à direita, ainda rente com a borda da cena de destruição.

Corri atrás dos passos que ouvia adiante, altos, sem parar meu chamado alto, até que foi possível ouvir, lá longe, o mar indo e vindo, como um chiado que alternava.

Quando as construções humanas foram deixadas para trás, pisei sobre a areia e vi a silhueta de alguém que se assentava na beira da praia, segurando os joelhos, olhando o balançar das águas escurecidas pelo fim do dia.

Era Jessica, eu tinha certeza, e podia ouvir sua voz cantarolando alguma música que gostava, sentindo a brisa, esperando que eu chegasse ali e findasse minha busca de uma vez por todas, saindo do inferno que minha cabeça se tornara.

Corri com toda força, sentindo a dificuldade de pegar embalo com areia macia debaixo dos pés, mas consegui chegar tão próximo a ponto de ver seus cabelos e parte do rosto, com os olhos admirando o mundo numa expressão calma.

Um vento veio carregado da umidade da neblina, cruzando por meus olhos como um tecido pesado, me fazendo perder a vista completa por um segundo. E quando os olhos abriram, não havia mais Jessica sentada sobre a areia, apenas uma rocha acompanhada de pequenas pedras, com uma densa camada de musgo e resquícios de algo que veio do mar e se prendeu no espaço estreito entre os corpos sólidos.

Eu estava ofegante, sem saber o que fazer, olhando ao redor e gritando pela moça que desapareceu em menos de um segundo.

Quando me voltei para trás, olhando para a vila, não encontrei mais a porção intacta do povoado, e meus olhos não viam muito além da neblina potente.

As histórias assombrosas sobre aquele canto me gelaram mais que o vento que vinha do mar, de modo que meu medo impediu que eu voltasse por dentre os escombros, mas procurasse caminho seguindo a praia, até que subisse por entre as casas inteiras.

Caminhei veloz e com passos largos, com toda minha atenção voltada para a destruição, atraído de uma forma magnética e evitando aquela sensação desoladora que vinha daquelas vielas.

Caminhei e corri por um bom tempo, muito além do tempo que me levou para cruzar todos os escombros, mas, finalmente, quando meu corpo se rejeitou a correr mais, voltei a ver uma silhueta no meio da neblina, há poucos metros adiante.

Me aproximei e todo o corpo tremeu. Eu estava de volta às rochas com a densa camada de musgo, como se tivesse dado a volta ao mundo e terminado onde iniciei tudo.

Até as marcas dos meus sapatos continuavam cravadas na areia onde a água não alcançava, e todo o mundo parecia me sugerir que eu adentrasse o labirinto de madeira podre e fétida, amaldiçoado por forças que ninguém conhecia profundamente.

De todo modo eu ponderava uma condição psiquiátrica tomando conta de mim, me confundindo, fazendo daquilo tudo possível.

Decidi que só precisava caminhar pelo caminho estreito por onde vim e logo estaria de volta ao povoado, me baseando na distância conforme o som do mar me indicasse.

Novamente meu corpo saltou num susto profundo, onde eu pude perceber que, depois do meu longo caminhar tentando achar o caminho de volta, as águas ao meu redor não emitiam mais qualquer som. Era somente o vento batendo contra meus ouvidos.

Peguei uma porção de água com ambas as mãos e deixei cair sobre todo o resto, mas ainda não houve nada além do som quase constante do vento.

Eu não tinha palavras sofisticadas o suficiente para abranger aquilo tudo, só podia dizer que me encontrava numa zona morta, fantasma, mas esses termos me apavoravam tanto quanto a ideia de estar alucinando tudo.

O tempo passava e logo eu seria rodeado de um escuro absoluto, já que a neblina impedia a luz da lua e estrelas. Saquei minha lanterna da mochila e comecei a caminhar na direção dos escombros, fugindo dos efeitos do anoitecer, pois meus sentidos me davam a horrorosa impressão de estar no escuro e úmido intestino de uma besta imensurável, a ponto que eu precisava daquelas casas abandonadas e da madeira podre para me confortar e convencer de que tudo poderia estar preso à minha imaginação.

Quando a luz entrou comigo por dentro do caminho estreito, novamente alguém estava adiante, e era a forma de Jessica, iluminada pela lanterna, correndo conforme eu voltava a chamar por ela, involuntariamente.

O desespero fez o coração bombear força para acelerar, até o ponto onde, claramente, eu só precisaria virar à esquerda e retomar a rua de pedras, entrando na cidade. Mas, em vez disso, lá estava a abertura para mais uma série de incontáveis vielas abertas em meio à destruição.

Eu não estava na vila, não a mesma de antes, e me restara tomar meu aparelho celular e procurar sinal para que as autoridades fossem ao meu resgate.

A neblina ou a carga de nuvens me bloqueou o acesso da frequência no aparelho, nem sinal de emergência apareceu, mas eu conseguia, curiosamente, sinal de localização, que me indicaria onde eu estava geograficamente.

Ativei as funções para que o aparelho me fornecesse um mapa de onde eu me encontrava e, se possível, arredores, o que ele fez imediatamente, para minha surpresa com a velocidade.

O mapa apareceu na tela luminosa, mostrando minha localização e um número grande de ruas ao redor, todas se encontrando em cruzamentos adiante.

Procurei atentamente pela direção do vilarejo, mas nada havia, então mudei a visualização para que me mostrasse a região onde eu estava.

Subitamente surgiu um mapa completamente desconhecido, e tudo apontando como se eu estivesse nele. Era uma ilha com uma imensa cidade no meio, sem mais nada nos arredores, só praia e mar.

Tentei mudar as configurações e, para meu horror, o que me mostrou foi além e eu pude ver minha localização a nível mundial, onde não havia nenhum continente, apenas um constante mar que o aparelho não conseguiu identificar nome.

Não havia mais norte ou sul, nem leste e oeste, mas uma única ilha num mundo de água e assombro.

Eu já estava trêmulo, então toquei meu próprio rosto, secando suor e colocando racionalidade de volta aos pensamentos, me convencendo de que era somente um tipo de erro no sistema do aparelho e, logo, eu voltaria para onde tudo começou.

Então perdi Jessica de vista, com o cheiro da madeira podre me invadindo o nariz, mas não consegui regressar, por medo de jamais ter por onde sair, e continuei minha caminhada por dentro das vielas improvisadas por obra da destruição, passando por cima e por baixo dos escombros com restos que lembravam a vida dos que abrigaram aquele pedaço abandonado.

Adiante veio uma abertura maior, e um resto do piso de uma casa, com um par de paredes fazendo uma quina. E ali havia alguém com as costas viradas na minha direção, trajando um tecido grosso e marrom, parecendo soluçar em desespero, sem voltar a atenção para canto algum que não fosse a junção das paredes.

Iluminei com a lanterna, e comecei a me comunicar das formas mais previsíveis e naturais possíveis, perguntando quem era, o que queria, o que estava acontecendo.

Quando cheguei há alguns metros, a luz intensificou na parede e aquele vulto se incomodou, virando para mim, então pude ver quão horrenda era sua aparência.

Maior do que eu em estatura, envolto numa pele grossa como couro, que me fez acreditar que se tratava de uma roupa de cor marrom, e com os braços unidos ao corpo, que fazia aquilo se debater de um lado para o outro, tentando se libertar da prisão de pele, enquanto emitia um som de choro humano.

Onde deveria haver um órgão genital, se fosse humano, estava uma abertura grande, derramando uma substância que fumaçava no frio da noite macabra.

Meu corpo gelou e eu não consegui me movimentar até que a criatura deu o primeiro passo e a abertura abaixo da cintura mostrou uma arcada dentária que estalou em mordidas famintas.

A cena bombeou energia dentro dos músculos das minhas pernas e corri como se não tivesse cansado nada naquele dia, entrando por dentro de vielas e buracos abertos na madeira que me interrompia o caminho.

Eu ouvia os passos da criatura atrás de mim, batendo contra o chão úmido, me horrorizando com seu som de choro, e eu tremia pondo força sem excesso em cada passo, com um grito preso na garganta.

Em certa curva houve um impacto contra o chão, bem atrás de onde passei, então algo mais seguiu me caçando, junto com a criatura, sem que ambos entrassem em conflito.

Eu rezava no íntimo do meu ser, acreditando que meu fim estava tão próximo quando o som dos pés que batiam atrás de mim, implorando por uma chance, um recuperar de energia que ultrapassasse a minha condição fraca.

Tropecei caindo sobre restos de madeira que, um dia, foram uma janela, então me virei imediatamente, ofegante, apontando a lanterna para ver os horrores que vinham atrás de mim.

Eram dois idênticos, mas um deles caminhava como um animal, sobre os quatro membros e com a barriga para cima, pois não tinha os braços presos na pele e estava com a cavidade entre as pernas apontada na minha direção, pois era a boca dessa espécie que só poderia ter saído de um recanto profundo dos horrores capazes de existir.

O instinto de sobrevivência veio por mim, então enfiei a lanterna acesa na boca e tomei um pedaço de madeira daqueles que tinha quebrado ao cair.

Quando o ser das quatro pernas chegou primeiro, cravei a tora no meio de suas pernas, o ferindo nas profundezas daquela boca "fora do lugar", cravando até seu interior, graças a uma ponta aguda na minha arma improvisada.

A cena foi tão horrível que a única coisa que me impediu de gritar, foi a lanterna entre meus lábios.

Assim tomei um segundo volume em mãos e parti para me defender da segunda fera, empunhando o objeto como um rebatedor de baseball.

A criatura tentou jogar o corpo contra o meu, para me lançar no chão, mas eu golpeei seu tronco de braços unidos e repeti o ataque até que aquilo se desequilibrasse nos escombros e tombasse.

Segui golpeando em nome da sobrevivência, a ambos os monstros, enquanto eles faziam os sons mais horrendos que já ouvi, com efeito estridente sobre mim, que me sentia, de certa forma, profundamente abalado por ter que chegar ao extremo de abater para sobreviver.

Quando me livrei das feras, caminhei mais lentamente, suspirando o ar e evitando as lágrimas, dizendo a mim mesmo que era hora de sobreviver, não de desesperar.

Aquelas coisas pareciam uma referência horrenda da sexualidade humana, como se saídos da pintura de um artista perturbado, e eu já me preparava para a possibilidade de haver muito mais adiante ou se eu ficasse parado.

O pedaço de madeira virou minha defesa constante, de modo que eu nem sabia se teria forças para largar o objeto, então me equipei com ele e não deixei de lado em toda a caminhada que segui.

Depois de penetrar uma camada dos escombros, na minha fuga, eu percebia mudanças no ambiente, como se certas coisas tivessem sido colocadas no caminho, em vez de derrubadas em ordem aleatória pela chuva forte.

Minha desconfiança parou quando vi um estreito inteiro com paredes de um tipo de tecido, erguidos e esticados por toras de madeira improvisadas. E toquei aquele tecido notando relevante maciez, mesmo nos pontos em que ele não era completo e me mostrava rasgos, então acompanhei sua superfície lisa até um desenho semelhante a uma tatuagem borrada.

Tentei identificar o que seria aquilo e parei por um segundo para prestar mais atenção, mas o feixe de luz da lanterna já me apontou algo além, logo abaixo nesse painel liso.

Havia uma pequena cavidade de formato circular, e não era profunda a ponto de atravessar o tecido, mas me levou um tempo até que minha mente pudesse raciocinar que, o que eu tocava não era um tipo de painel sintético usado nas tentativas de reforma, mas um painel de pele que se esticava perfeitamente.

Aquilo não parecia uma tatuagem, era uma tatuagem, provavelmente que pertencera a uma mulher, feita ao lado do umbigo.

Minha força se esvaiu no medo e eu continuei a passada com as pernas a bambear, sem poder me agarrar às paredes de escombros, pois essas tinham essa decoração grotesca de restos mortais.

Finalmente saí do caminho estreito e vi um banco, como os bancos de praça, num espaço vasto e aberto, onde eu pude me sentar e retomar o ar, mesmo que tivesse que apagar a lanterna para não chamar atenção.

O cheiro de madeira podre estava mais fraco nesse grande descampado onde tudo fora lançado longe pelo vento, e minha segurança momentânea era o escuro, inalando a brisa fria e recuperando as forças.

Fiquei em repouso por um bom tempo, então veio uma luz no recanto mais distante, mas era luz de lâmpada, revelando uma pequena casa feita com os restos que podiam ser encontrados ali com abundância.

Fixei os olhos nas sombras que se moviam lá dentro, desacreditando que era possível que alguém vivesse naquele lugar absurdo, mas minhas dúvidas acabaram assim que uma porta se abriu, projetando luz para fora, e um cidadão surgiu levando o saco de lixo para fora, onde depositaria num carrinho com rodas, muito antigo e enferrujado.

Era um cidadão comum, vivendo normalmente, assobiando conforme uma música que imaginava. E eu tive impulso para sair de onde estava, acender a lanterna e começar a chamar pelo morador, que ficou surpreso ao me ver, mas não recuou.

Quando ambos fomos iluminados pela luz da pequena casa, eu me apresentei com um pedido claro de socorro, sem saber por onde começar a descrever meus problemas.

Minha fala cessou ao ver aquele homem estranho diante de mim, alto, pálido com uma regata branca e calças pretas que se fundiam às sombras de tudo ao redor.

Ele tinha poucas cicatrizes nos braços e nenhum outro sinal claro de perigo, mas seus olhos profundos, rodeados por olheiras negras, pareciam uma visão igual a das criaturas que me perseguiram.

Com voz grave ele pediu que me acalmasse, então fez um convite claro e medonho:

"Venha para dentro, aqui fora é perigoso, tomamos um café e conversamos sobre esse lugar...".

Ele deu passos adiante, silencioso, subiu as escadas e parou na porta, com sua sombra se projetando sobre mim enquanto eu decidia ficar lá fora com as monstruosidades ou entrar para uma conversa com um estranho.

Eu subi atrás dele e vi que a casa era como um pequeno trailer, com energia elétrica que vinha sobre cabos que ainda, milagrosamente, não se abalaram pela tempestade e se mantinham intactos. Havia uma mesa pequena e duas geladeiras, onde ele estocava comida, além de diversos utensílios para a cozinha.

Ele me apontou uma das cadeiras e disse para que eu sentasse e não tivesse receio, pois estava protegido dentro da casa.

Eu me sentei sem remover a bolsa, temeroso,enquanto ele me trouxe uma xícara de café e se sentou sobre a cadeira no canto oposto de onde eu estava, se dispondo a ouvir minha história com a frieza de uma máquina e ambas as mãos debaixo da mesa.

Eu não conseguia tomar o café por falta de apetite, então desatei a contar como me perdi naquele labirinto impossível, relatando coisas como a luta com as criaturas, os adornos de pele e o mapa que não me mostrava nenhum tipo de saída.

Então ele me perguntou o que me levara até esse recanto desabitado e eu lhe mostrei a foto de Jessica, contando a história sobre ela.

Foi a única vez que ele expressou reação, franzindo a testa diante da imagem e começando a me dizer sua versão das coisas:

"É uma pena que não tenha encontrado a moça... Eu tenho passado um bom tempo aqui, perdido como todo mundo, mas eu vim em busca de um lugar só meu... Onde eu pudesse ser livre... Ficar em paz... Já que, lá fora, as pessoas cobravam muito de mim...".

Eu o compreendi em parte, então ele me pediu para tomar o café e eu contei sobre minha condição psicológica, o emocional abalado, que dificultava um pouco o ingerir das refeições, mas agradeci, ouvindo mais do que tinha a dizer.

"Aqui, nessa situação de agora, tudo parece horrível, e é, mas o que me parece mais difícil é o encontrar de comida... Então eu acabo tendo que me virar com o que acho nos escombros... E, de vez em quando, aparecem coisas tão recentes, que parecem que os recursos nunca se esgotam... Surgem com a mesma mágica que levaram embora as saídas para a vila".

O felicitei pela noticia de que haviam formas de sobreviver, então lhe perguntei se ele tinha visto mais pessoas por ali.

Por uma última vez ele insistiu que eu tomasse o café, mas tive que rejeitar de novo, respeitosamente, então ele me contou mais detalhes da vida no coração do horror.

"Eu já vi muita gente por aqui, todos como você, procurando por alguém que desapareceu ou se foi... E sempre acham provas para acreditar que essa pessoa se encontra no meio dessa loucura...

Eu tento ajudar, até ofereço abrigo à maioria, mas há um problema muito grande por aqui, que é o encontrar de proteína...

Eu sempre gostei de cozinhar e comer bem, e esse lugar me provém diversas coisas... Eu encontro açúcar, café, temperos, trigo, bebidas, até mesmo algumas algas comestíveis na beira da praia, doadas como um presente... No entanto, a carne é muito difícil de se encontrar...

Seguindo o meu instinto e a minha... Arte... Nada mais normal que eu peça, das pessoas que chegam, uma doação de carne, para que os bons costumes prevaleçam aqui dentro...".

O corpo daquele homem continuou sólido como rocha enquanto ele me contava sobre essa "necessidade" por carne, mas seus olhos brilharam, principalmente depois de eu lhe dizer que, infelizmente, não trazia carne comigo.

Num movimento lento, ele pegou alguma coisa que estava grudada à mesa por fita adesiva, fazendo o barulho que me arrepiou por completo, então subiu o braço me exibindo uma lâmina reluzente.

"Geralmente... As visitas tomam o café, então eu posso tomar a doação da carne... Mas com você eu vou precisar de um pouco de esforço a mais...".

Naquela fração de segundo tudo ficou claro, com um café que me faria desmaiar dopado para ser atacado pelo maluco no lugar mais macabro do mundo.

Me lancei da cadeira, correndo, mas as passadas dele foram mais precisas e velozes, de modo que me puxou pela bolsa que jamais tirei das costas.

Eu tinha deixado minha barra de madeira dentro da bagagem, em nome do respeito, e agora ele se preparava para me envolver o pescoço e tirar meu ar.

Na luta da sobrevivência não haviam regras, então mordi seu braço com força, sem que ele mostrasse nenhuma reação sonora, mas me soltasse para me empurrar de modo que eu desequilibrei e caí próximo da porta para saída.

Enquanto vinha na minha direção, ele tinha um sorriso imenso, assombroso, e me contava com orgulho:

"Eu cacei tanta coisa por aqui que até os monstros evitam essa casa... Eu sou o topo da cadeia alimentar nessa selva nojenta!".

Ele era mais que louco, era tomado de insanidade e uma maldade que, provavelmente, vinha de muito tempo antes de se mudar para essa localização que tanto combinava com sua índole.

Na minha cabeça, eu recitava todas as preces que conheci desde a infância, sentindo como ele me tomava pela mochila como um boneco leve.

O instinto tomou conta de mim e usei o próprio impulso do puxar, forçando minhas pernas no primeiro móvel que encontrei, me lançando pela janela traseira.

Ele me segurou pelas pernas, rindo da minha situação, então fiquei livre para tomar um volume de madeira dentro da minha bolsa, passando a golpear sua mão, para me libertar.

Assim que cai no chão, reparei que não era o bastão de madeira, mas meu crucifixo, que sempre levava, de acordo com a fé que eu e Jessica sustentamos durante toda a vida.

Agora a peça tinha me ajudado de maneira prática, mas eu não podia ficar ali por muito tempo, de modo que voltei para as sombras dos escombros, com a certeza de que o maluco estava a me perseguir, levando consigo a lâmina reluzente e uma lanterna poderosa. Eu não teria como fugir sem ligar minha própria luz, mas era a única forma de eu me movimentar, mesmo que revelasse minha localização.

No meio do desespero, adiante de nós, eu voltei a ter a visão do fantasma de Jessica, ou dela mesma, iluminada debaixo do feixe que saía da minha lanterna, como uma última recordação da perdida felicidade. E enquanto eu chorava, agora por não poder suportar, chamei por ela uma última vez, causando uma misteriosa reação por detrás de onde eu estava.

O maluco começou a rir, gargalhar em voz alta, e eu só pude desacelerar o passo para ouvir que coisa ele me diria depois daquele surto de riso.

"Essa moça, eu conheci a sua Jessica... Essa que você me mostrou na foto...

Eu usei o corpo dela igual um boneco... Igual um pedaço de LIXO... E brinquei até enjoar, antes de colocar o que sobrou naquela caçamba, onde ninguém deveria ter desconfiado...

Mas é como dizem, não existe crime perfeito... Então eu acabei me mudando de canto a canto, fugindo de gente que queria me prender, que não entendia minhas necessidades, minha vontade! Mas encontrei esse lugar... E aqui tudo é tão perfeito, é minha floresta particular, e gente como você são os frutos esperando para serem colhidos...

E antes de morrer, a mocinha chamou por você e pelo deus dela, além dos pais, família e todo mundo que poderia chamar... Acho que ela chamou até quem já tinha morrido!".

E ele ria enquanto eu apagava a luz da lanterna, também apagando a luz dentro de mim, tentando mensurar o alcance do destino, que proporcionou esse encontro tão marcante, tão crucial, como um ápice de todos os anos que vivi.

Voltei a mão para o ziper aberto da mochila, tomando o bastão de madeira e caminhando na direção do bandido, com o coração bombeando calor para o peito, irradiando para os demais membros.

Inalei inspiração nas monstruosidades que rondavam nas sombras, e comecei a correr de forma irregular, sem que ele pudesse fixar sua lanterna sobre mim, subindo por escombros variados e voltando para a trilha, atravessando para o outro lado num vai e vem tomado por insanidade.

Ele era louco por ser louco, mas eu estava louco e tomado por toda dose de adrenalina.

Há poucos metros de distância, pulei da esquerda para a direita, confundindo a lanterna mais uma vez, cortando o vento com o bastão de madeira, que acertou aquele rosto horrível a ponto de fazer uma ferida visível, ao lado da boca.

Ele girou e voltou uns passos, tonto e indignado por ser maior, mais forte, mas menos astuto do que minha raiva me permitia ser.

Quando o corpo voltou na minha direção, golpeou meu rosto de forma a parecer um veículo em alta velocidade, me abalando por completo, até removendo meus pés do solo, a ponto de causar tontura, mas não cessar o ardor que me queimava por dentro.

Eu não tinha mais qualquer apreço pela minha condição ou pensamentos alheios à ideia de vingança, me preenchendo e forçando a usar toda a extensão de estratégia nos segundos em que a peleja durava.

Dali, onde parei depois de bambear, voltei toda a força contra a parte que podia alcançar, o golpeando na mão, derrubando a lâmina que ele carregava, mas levando mais um golpe potente, com igual potência do primeiro. Mas não desisti e mirei o nariz com a precisão de uma máquina, acertando o bandido num estalo alto de um osso rompido.

Segui batendo, mesmo sem ver no que batia, e urrei como um animal fazendo eco no meio daquele lugar perigoso.

Minha raiva estrondou e chamou a atenção de coisas além de nosso controle, então, subitamente, nos vimos quase cercados de passos e movimentos de seres nas sombras, tentando pular sobre ambos, aproveitando a fraqueza física do momento.

Voltei para meu caminho de fuga e o maluco teve que ir na direção oposta, me abandonando com a promessa de que iria me encontrar no meio daqueles escombros.

"Eles me chamam de Cutelo... Pelas minhas lâminas...".

Ecoou a voz horrorosa no ar, enquanto nos separamos numa corrida pela sobrevivência que provava a verdade acima do que o bandido me contara. Ele também tinha medo do interior dessa área, e as criaturas não o respeitavam além do seu quintal de horrores. Talvez, por isso, procurasse comida caçando seres mais frágeis, como todos aqueles que se perdiam nesse espetáculo de temores.

Eu fugi, mas já tinha um medo, um choque, bem mais forte do que a sensação de ser perseguido. Era o peso do passado e do presente, grotesco presente, se chocando dentro de mim e abalando minha estrutura por completo.

Na correria, despistei as sombras que buscavam me dilacerar, entrando pelas vielas que, não por impressão minha, começavam a se estreitar e ficar mais bagunçadas, com adornos de pele aqui e ali, horrendos, sem nenhum senso de beleza.

Creio que, em determinado momento, assim que o caminho se estreitou o suficiente para eu não ser perseguido, passei a caminhar com um semblante tão abatido quanto o de qualquer monstro dali. E tentei buscar um resquício da velha positividade ao segurar meu crucifixo com firmeza, mas esse se rompeu na minha mão, em duas partes.

O objeto se danificou na luta contra o maníaco, mas era uma representação mais que perfeita do estado da minha fé.

A memória de Jessica se encontrava forte, assim como a dor semelhante à dos dias em que a encontramos, naquele beco escuro, e aquele que se chamava de "Cutelo" vinha como uma chave para uma tumba de sensações.

Olhei para o alto e não havia céu além de neblina escurecida pela noite, me fazendo duvidar de tudo em que acreditei, e pior, sobrepondo minhas certezas com novas ideias.

Havia uma mente no meio desse mundo caótico, uma mente que controlava essas paredes estreitas, essa falta de saídas, e engenhava os horrores se baseando naquilo que nós mesmos tínhamos gravado na memória... Nossos traumas.

Novamente ouvi os passos de calçado e a figura de Jessica se colocou diante da minha lanterna, mas eu não acelerei a passada, apenas fiquei ali, olhando aquele fantasma, aquela miragem, me lembrando de como ela era ou é.

Somos irracionais, nós humanos, e essa irracionalidade me trouxe uma sensação de profunda vergonha pelo embate com Cutelo, mesmo eu tendo relevante "razão" na minha raiva.

Não era o que Jessica gostaria de ver, nem de saber... E, se ela pudesse, nunca teria visto aquele monstro em toda a vida, e nada disso teria acontecido.

De certo modo, ele era minha ligação a esse mundo, a raiz das tristezas que me trouxeram aqui, e era melhor que eu buscasse saída do que vingança.

Comecei a seguir o vulto da moça que me trazia uma fagulha de nobreza aos pensamentos, e ela me guiou pelos pontos mais estreitos até que minha cabeça aliviasse a tensão passada e eu percebesse que, seguindo aqueles detalhes dos arredores, havia alguma coisa no interior dessa vila abandonada.

Os escombros estavam se compactando e estreitando os caminhos, guardando espaço para alguma coisa que se posicionava, geograficamente, no ponto mais central dessa ilha abominável.

Sem muito apoio, tomei meu aparelho celular e me inclinei sobre os montes de madeira e tijolos, subindo um pouco até que meu braço alcançasse uma altura relevante para tirar uma foto do horizonte.

Usei um flash potente, ignorando a regra de não mostrar minha localização, mas não tive medo, pois estava cercado por paredes que impediriam a aproximação daqueles monstros sem coordenação motora.

A foto me revelou uma série de caminhos igualmente estreitos e, adiante, um volume que se erguia fazendo contraste com a neblina, mas distante o suficiente para estar fora do alcance do flash.

Caminhei seguindo meu fantasma preferido, razoavelmente perturbado com a distância entre eu e ela, por eu nunca poder ganhar vantagem naquela busca e finalmente lhe tocar, pelo menos, a roupa, e pedir que me falasse algo, uma resposta qualquer.

Ainda que fosse para viver nesse mundo escuro, se isso fosse trazer Jessica de volta, eu não teria problema... E mesmo que ela fosse voltar para uma vida longe daqui, uma vida com saúde, seguindo seus sonhos, eu não me importaria em cumprir pena nesse lugar amaldiçoado.

Achei um inseto de corpo longilíneo, cascudo, lembrando uma lacraia, mas com dois pares de asas e apetite voraz, que veio sobre minha roupa e, num segundo, começou a devorar pelo tecido, querendo se cravar na minha pele.

O golpeei com força, e me aliviei profundamente nessa nova monstruosidade, pois era bem mais fácil de eliminar.

Segui marchando com os olhos atentos, evitando os vermes que brotaram na terra úmida, devorando a madeira podre e sentindo meu cheiro, dobrando curvas e sobrevivendo como me era permitido, até que o caminho findou na estrutura que eu vi no retrato que tirei.

Era o fim da linha, com uma parede de casas que, definitivamente, não foram feitas por pessoas e não se encontravam sustentadas por nenhuma forma de lei da física.

Casas de madeira, tijolos e pedra, de todos os tamanhos, encaixadas de forma irregular, uma acima da outra, sem que fosse preciso qualquer tipo de coluna para sustentar o peso descomunal.

Eu quase podia mensurar a altura, acreditando que superava seis andares, com portas que se encontravam lá nas alturas.

Se eu quisesse prosseguir, era para lá que meus pés e coragem deviam me levar, então abri qualquer das portas, entrando num complexo de cômodos interligados num gigantesco anel de muitas camadas.

A porta bateu atrás de mim, com um estalo metálico que me fez voltar a atenção para a fechadura e o que acontecera com ela.

O metal, num único instante, havia derretido e se fundido por completo à porta e parede, bloqueando minha saída, numa armadilha que dava as boas vindas a um novo ar.

Agora não tinha neblina, e o frio forte ficou lá fora, me deixando com um escuro assombroso e paredes carregadas de teias de aranha, sem qualquer traço do animal em si.

As teias eram grossas como tecido, empretecidas pelo tempo, sem sinais de insetos presos a nenhuma delas, apenas adornos que invocavam medo.

Caminhei com o ranger da madeira debaixo dos pés, investigando móveis vazios, quadros que retratavam rostos borrados e paisagens pintadas com tinta escura, com muito poucos traços identificáveis.

Abri uma porta nova, seguindo sempre adiante, para evitar me perder dentro das casas e, se fosse possível, atravessar essa camada de cômodos unidos.

Adentrei um cômodo ainda mais decrépito, com um acumulo maior de teias, uma cama de lençóis que foram brancos um dia, e um volume escurecido de teia, se projetando para fora da parede e exibindo movimento.

Era uma criatura unida à construção, com traços de tecidos vivos misturados na bagunça que era a teia, mostrando resquícios vagos de uma forma humana e uma máscara visível, escondendo um rosto que não tinha se formado ou deformado por completo.

A máscara, feita de um tipo de pele, era costurada em diversos pontos, com linhas grosseiras, mas traços vagos da aparência de Jessica.

Era uma das brincadeiras de mal gosto que esse lugar apresentava, me fazendo tremer tanto quanto aquele ser que aguardava sua formação completa num útero formado do emaranhar de teias.

O horror não reagia à minha presença, mas era o equivalente a uma bandeira de alerta para os medos que se colocariam diante de mim nos próximos espaços abertos.

E eu investiguei a cama ali, onde vi uma folha de papel saindo por debaixo do travesseiro, com um texto manuscrito que dizia:

"Esse é o máximo que eu consigo, Maria... Eu preciso repousar, as coisas conseguiram me machucar e eu acho que foi feio.

Se alguma coisa acontecer comigo, eu quero deixar essa nota aqui, para que você encontre e leia, e saiba que eu nunca te esqueci... E, de algum jeito, eu sei que está viva nesse lugar... Eu te vejo, eu te sinto, e não posso desistir. Só preciso descansar um pouco e tentar estancar minhas feridas".

Estava assinado por "Jonas", então eu compreendi que foi outro dos que entraram nesse lugar, procurando por uma moça perdida ou que não tinha mais vida, como eu estava fazendo.

Talvez, de acordo com a lógica obscura que rege tudo dentro dessa dimensão escura, o pobre Jonas tenha acabado como aquela coisa na parede, sem consciência, sem um corpo definido, somente um resto que ainda sofria, corrompido pouco a pouco, se transformando num dos monstros.

Eu me aproximei do montante horroroso de tecido vivo e teias escuras, então tentei falar com aquilo, buscando uma reação. E, de todas as palavras que eu disse, a silhueta com vida só reagiu quando mencionei Maria, quem ele buscara.

Seu corpo estremeceu e uma boca, por detrás da máscara de pele, tentava pronunciar o nome da amada perdida.

Levantei a voz para que ficasse clara, pois eu não tinha certeza se ele tinha condições de me ouvir.

"Jonas... Eu achei sua carta para Maria, estou colocando ela sobre a cama, como você deixou...

Eu também estou buscando por alguém, mas eu não posso deixar você aqui, sofrendo dessa forma... Eu preciso saber se existe uma maneira de te ajudar...".

O corpo de Jonas estremeceu e ele colocou força para me pedir para tirar a máscara, usando palavras básicas.

"Máscara... Tira... Máscara".

Com aflição, eu tomei aquele objeto pela ponta e removi lentamente, revelando um crânio com pouco tecido e grandes olhos azulados me olhando fixamente, sendo a única parte que não estava envolta pelas teias densas.

"Debaixo... Cama...".

Eu atentei para o pedido de Jonas e iluminei a parte debaixo da cama com a lanterna, revelando um bloco de papel e uma caneta, ambos empoeirados, de quando ele passou por ali e anotou seus pensamentos.

Não havia mais nenhum traço de sua bagagem, apenas isso.

"Anota... Árvore... Saída...".

Ele me pedia para desenhar uma árvore ou anotar algo sobre uma, mas não entendi o que aquilo tinha a ver com a saída, mas era duro ter que pedir explicações mais profundas a quem tinha a fala debilitada. Jonas insistiu e conseguiu me dar informações em palavras desconexas, que eu interpretava e dizia minha interpretação para ele me dizer se estava correta.


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