include_once("common_lab_header.php");
Excerpt for Fragmentos: Fernando e Sofia by , available in its entirety at Smashwords


INTERSECÇÕES



FRAGMENTOS 0.2

FERNANDO E SOFIA




UMA SÉRIE LITERÁRIA DE

João Dias Martins











Kobo

Edição de Autor, 2018


Fragmentos: Fernando e Sofia, de João Dias Martins

Série: Intersecções (Temporada 0, Episódio 2)

Edição de Autor, 2018


http://bit.ly/IntT0e2


© 2017 Joel G. Gomes


Texto: João Dias Martins

Capa: Joel G. Gomes



Um grupo de indivíduos vê-se envolvido numa perigosa caça através do tempo e do espaço por misteriosos artefactos capazes de realizar qualquer desejo ou, se mal utilizados, provocar a destruição do Universo.



Neste episódio:


Quando Fernando Andrade recebe uma chamada, informando que o seu filho Tiago acabou de dar entrada no hospital, ousará ele contrariar as ordens do seu chefe e ir ao encontro do filho?


Quando Sofia Andrade é avisada que o seu filho foi para o hospital após um incidente bizarro, conseguirá ela ignorar o fenómeno inexplicável que julga ter visto e ir ao encontro do filho?


Tiago Andrade foi um benção para os seus pais. Uma prece vinda dos céus, em vários sentidos. Por ele, Fernando e Sofia estão dispostos a tudo. Mas quando a opção não está nas suas mãos, quando apenas podem ver e esperar, o que poderão eles fazer para combater o que parece inevitável?



O LIVRO É TEU, MAS A HISTÓRIA É MINHA



As histórias são como os leitores: cada qual é especial à sua maneira.

Apreciaste o elogio? Óptimo. Agora, aprecia a história. Podes até partilhá-la, se quiseres. Mas não a divulgues como tua. Nem tentes fazer dinheiro à conta dela, pode ser?

De resto, obrigado pelo interesse. Não sei se esta é a primeira história minha que lês. Se for, espero que não seja a última.

Volta sempre.



INTERSECÇÕES é um projecto partilhado com O MAL HUMANO (de Joel G. Gomes) e O ÚLTIMO (de Ricardo L. Neves). Para saber mais sobre estes projectos vai a: http://bit.ly/MhIntUlt.

Podes também tornar-te um subscritor do site através do email mail@joelggomes.com (Assunto: Subscrição) e ter acesso a conteúdos exclusivos, cupões de desconto e outras benesses.




1




Metalits, Zona Industrial da Moita

16 de Setembro de 2008, 8:05


Eram sempre oito menos dez quando Fernando chegava ao seu local de trabalho. Naquela manhã, pela primeira vez em quase cinco anos, chegara um pouco depois da hora, com a plena noção de que o tempo extra que dava à casa não evitaria que lhe dessem um puxão de orelhas pelo atraso.

Entrou no recinto, atravessou o pátio e adentrou o pavilhão. Olhou para o leitor de cartões e pensou em picar logo o ponto — sempre eram menos os dois minutos que iria demorar a trocar de roupa. Continuou caminho, entrou no balneário e começou a despir-se. Trocou a camisa lisa, as calças de tecido e os sapatos por uma t-shirt branca, um par de calças de ganga gastas e umas botas de biqueira de aço. Por cima da t-shirt vestiu um casaco com o logotipo da firma estampado nas costas. Dobrou a roupa com cuidado e colocou-a dentro do saco antes de o enfiar no cacifo.

Quando ia para atravessar o pavilhão em direcção à sua área de trabalho, ouviu alguém chamar por ele.

«Andrade! Chegue aqui!»

Quem o chamava era o Engenheiro, também conhecido por Grilo — de apelido, de alcunha e também de feitio. Além de chefe do pessoal, Grilo era o responsável pelo controle horário. Era ele quem contabilizava as horas e os minutos que cada trabalhador marcava no cartão. Ao vê-lo, Fernando lembrou-se que não picara o cartão.

Grilo estava parado, à espera dele. Não podia voltar atrás. Avançou.

«Diga, chefe. Passa-se alguma coisa?»

«Passa-se que não está na sua área de trabalho. O que é que anda a fazer? As peças para a Navifrag já estão prontas?»

«Falta terminar três e verificar as outras que já estão. Até ao final da manhã, terei tudo pronto.»

«Já era para ter ficado pronto ontem.»

«Ó chefe, o material chegou aos dez pras cinco. Mesmo assim, ontem ainda despachei logo umas cinco peças.»

«Despachar uma parte ou não despachar nada, é o mesmo. Não vamos enviar uma encomenda incompleta. Um carro não anda só com três rodas, pois não? Se quer tanto mostrar serviço, termine aquilo que começa.»

E com isto, Grilo deu meia volta e foi-se embora. Fernando imaginou-o a ser comido vivo por vermes, teve pena dos pobres bichinhos e foi à máquina picar o cartão. Como sempre, os outros atrasavam-se e quem pagava a fava era ele. Para a próxima já sabia. Ou não. Por muito passado dos carretos que estivesse naquele momento, a verdade era que não gostava de deixar serviço por fazer. O dia anterior, tal como aquela manhã, tinha sido uma excepção, mas as razões do seu atraso, ou da sua saída a tempo e horas, eram tão irrelevantes para os patrões como o tempo extra que trabalhava sem pedir muito em troca.

Fernando conseguiu a proeza de chegar ao seu biombo sem mais interrupções, mas assim que o fez foi logo brindado pelo seu vizinho do lado, Godinho.

«O Grilo já te deu nas orelhas pelo atraso.»

«Deu, mas não foi pelo atraso.»

«Então?»

«Eh…! Merdas dele. Já se sabe.»

Fernando colocou a máscara protectora e ajustou a fita até estar à medida. Ligou a máquina de soldar e verificou se os ajustes que deixara do dia anterior continuavam iguais, ou se alguém do pessoal da noite tinha andado a mexer lá. Confirmando que estava tudo igual, a confirmação, abriu e fechou a válvula de gás várias vezes para limpar eventuais impurezas da tubagem, certificou-se que não havia obstruções e ajustou o fluxo. De seguida, pegou no primeiro de três conjuntos que faltava soldar e limpou a peça com um pano embebido em diluente.

No dia anterior deixara as peças unidas com um pingo de solda. Estivera quase para perguntar ao estúpido do Grilo porque é que não mandara alguém do turno da noite completar o serviço, se era assim tão urgente. A resposta era fácil. Nenhum deles era tão bom soldador como ele.

Após prender a peça no torno para garantir estabilidade, Fernando calçou as luvas, colocou um eléctrodo na pistola, acendeu o maçarico e baixou a viseira. O mundo caiu numa escuridão súbita, logo interrompida por faíscas crepitantes e mini-relâmpagos de cor branca.




2




Centro de Acolhimento Primum Vivere, Alhos Vedros

16 de Setembro de 2008, 12:21


Durante os dez anos em que estivera internado naquele centro de acolhimento, Salomão Colaço não tivera um único gesto de simpatia ou gratidão para com os vários membros da equipa que todos os dias o alimentavam, davam banho e tudo faziam que o tempo de vida que lhe restava fosse o menos doloroso e mais confortável possível. Uma palavra, de elogio ou insulto, seria um milagre, já que Salomão nascera mudo.

Dado o seu feitio, não se podia dizer que a sua morte seria muito lamentada. Na verdade, ali poucas o eram. Quando o dia a dia era passado à sombra da sua presença, era difícil não ganhar uma certa crosta emocional. Ainda assim, por muito detestável que uma pessoa fosse durante a sua vida, havia quem acreditasse na existência de um momento de arrependimento final. Um momento em que o moribundo olhava para trás, contemplava o que tinha sido a sua vida e percebia (ou não) os erros que já não era possível corrigir.

Sofia Andrade era uma dessas crentes, e Salomão uma provação constante.

O paciente do quarto 17 dera entrada no centro numa cadeira de rodas. Durante uma operação a uma hérnia, o médico causara uma lesão irreversível na espinal medula. A indemnização baixa não lhe devolvera a mobilidade, nem tão pouco preservara o seu espírito afável. (Se é que alguma vez o tivera.)

A esposa de Salomão fizera os possíveis para tomar conta dele, mas os seus próprios problemas de saúde acabariam por levar a melhor. As lesões de Salomão agravaram-se e este acabou por perder também o uso dos braços.

Quando Sofia começara a trabalhar no centro, Simão já lá estava. Havia até quem dissesse que ele já lá estava antes de o centro abrir. Era um exagero, sem dúvida, mas a verdade era que antes de a vida o castigar, poucos tinham ouvido falar dele. E depois de ali chegar, poucos podiam dizer que o conheciam de facto. Salomão era um estranho vindo de parte desconhecida. Tanto quanto ela sabia, ele podia muito bem merecer todo aquele martírio. Ou pior ainda.

Sozinho no mundo, com mais dinheiro que alguma vez poderia gastar, em tudo dependente de terceiros, a sua constante raiva contra o mundo não lhe era assim tão difícil de compreender.

Foi talvez por estar de tal embrenhada nesses pensamentos que Sofia não reparou logo no que acabara de acontecer.

Salomão parou de mastigar a meio de uma garfada de arroz e carne insossos, olhou para ela com algo que noutro rosto seria tomado como gratidão, e disse: «Obrigado, Sofia.»

As palavras inesperadas puxaram-na de volta para uma realidade desconhecida. Uma realidade onde Salomão sabia o seu nome, onde Salomão sabia demonstrar apreço: uma realidade onde as suas palavras (simples e inéditas) soavam dentro da sua cabeça.

Como se fosse uma alucinação?

Antes que Sofia pudesse processar o que acabara de acontecer, o seu telemóvel começou a tocar.

Sofia atendeu, sem desviar o olhar de Salomão — de novo preso no tempo.

«Sim?»

«Boa tarde. Fala do Infantário Anjo Traquinas. Estou a falar com a mãe do Tiago Andrade?»

O coração de Sofia contraíu-se ao ouvir o nome do filho.

«Sim, é a própria. O que é que passa? Aconteceu alguma coisa ao meu filho?»

Do outro lado, a ausência de uma resposta rápida só contribuiu para aumentar a sua ansiedade.

«Estou? O Tiago está bem? Diga qualquer coisa!»

«Nós não sabemos o que aconteceu», respondeu por fim a voz. «Ele estava a pintar um desenho e de repente desmaiou.»

«Desmaiou? Desde quando é que uma criança de quatro anos desmaia assim de repente? Quem é que estava a tomar conta dele? Como é que deixaram isso acontecer?»

«Eu entendo que esteja zangada, mas ele foi—»

Sofia não a deixou continuar. «Você entende? Eu quero lá saber se você entende ou deixa de entender. Segundo dia e já tenho o meu filho desmaiado. Mas que bosta de infantário é o vosso? Deixe estar, não se incomode. Eu vou já para aí. O meu filho não fica aí nem mais um dia.»

Estava prestes a desligar quando ouviu: «O Tiago não está aqui.»

«O que é que disse?» Esfregou a testa. Devia ter ouvido mal, só podia. Da mesma forma que imaginara Salomão a falar dentro da sua cabeça.

«Ele foi o examinado no local, mas os paramédicos não o conseguiram reanimar, por isso mandaram-no para o Hospital Henrique Semedo no Barreiro.»

«Eu não preciso que me diga onde é que fica o Hospital Henrique Semedo. Eu preciso é que me diga onde está o meu filho.»

«Ele está na ala de pediatria.»

«Mais alguma coisa que deva saber?»

«Julgo que não.»

Da parte dela, também não precisava de saber mais nada. Terminou a chamada e olhou para Salomão. A expressão no rosto dele não se alterara. Teria sido mesmo uma alucinação? Mais tarde poderia preocupar-se com isso. Naquele momento, a vida do seu filho era prioritária em relação a quaisquer vozes na sua cabeça.




3





Hospital Henrique Semedo, Barreiro

16 de Setembro de 2008, 15:40


Passado mais um quarto de hora, Sofia tornou a ligar para Fernando. Tocou uma vez, duas, três, era assim tão difícil atender?, quatro, cinco…

«O que é que queres? Não sabes que ‘tou a trabalhar?»

Sofia conteve-se para não responder à letra (enervarem-se um com o outro não ajudaria ninguém) e falou num tom calmo.

«Eu não estaria a ligar a esta hora se não fosse uma urgência, Fernando.» Fez uma pausa antes de prosseguir. «Estou no hospital do Barreiro com o Tiago.»

«No hospital?» O tom dele mudou de imediato. Fernando podia ser abrutalhado, mas no que dizia respeito ao filho não havia nada que não fizesse. «Ele está bem?»

«Não sei… Ainda estão a examiná-lo.»

«Mas o que é que aconteceu? Caiu? Aleijou-se?»

«A pessoa que me ligou lá do infantário disse que ele desmaiou.»

«Desmaiou?»

«Sim. Estava a pintar um desenho e caiu para o lado.»

«Eu disse que não gostava daquele sítio, não disse? Mas tu tinhas de insistir...»

Não tinha como discordar dele. Antes pelo contrário.

«Isso agora não importa. Consegues vir cá ter agora?»

«Só quando sair.»

«Fala com o teu chefe para te deixar sair mais cedo.»

«Eu bem queria, mas isso para ele seria só lenha para me mandar embora.»

Sofia notou a amargura na voz dele, mas isso não a impediu de insistir.

«O nosso filho está no hospital, Fernando! O que tens para fazer aí é assim tão mais urgente que não possas largar e vir para cá?»


Purchase this book or download sample versions for your ebook reader.
(Pages 1-16 show above.)